Cantinho da Helô

Tuesday, January 16, 2007


Olabisi no Bosque de Indra


Olabisi caminha solitária pela estrada de terra amarela. Desde que fez sua escolha, teve que ser forte. A jovem tinha decidido há anos que renunciaria à sua mortalidade para servir eternamente a Líbia, senhora da floresta.

Quando completasse 21 primaveras, sairia de sua casa, abandonaria seus amigos e familiares, e tomaria o caminho do Bosque de Indra, o mais afastado, longínquo e misterioso bosque do continente.

O dia chegara. Olabisi foi com a roupa do corpo. Despediu-se de Taila, sua mãe, e de Uriel, sua irmã menor. Nenhuma das duas entendia a decisão da moça. O pai nada sabia, e estava a trabalhar junto com outros lenhadores numa madeireira próxima ao lago.

Olabisi não ia feliz. Mas fizera uma promessa e teria que cumprir. Há 10 anos, seu pai, um lenhador muito forte chamado Guiwi, caiu doente. Nenhum médico ou curandeiro conseguiu diagnosticar.

O fato era que Guiwi, num dia de muito calor, adentrou os Bosques de Indra, e adormeceu sem querer sob a árvore de Líbia. O território era proibido para mortais. Quem se atrevesse a atravessar suas aléias, morria de uma morte misteriosa, ou nunca mais retornava aos seus.A senhora das ninfas não ficou satisfeita em ver o mortal sob a sombra de sua residência e mandou Mewlok, o fauno, colocar pó de serro-de-juta, uma poderosa e mortal raiz, por sobre o lanche do lenhador.

Após acordar, Guiwi resolveu almoçar, e logo sentiu as seqüelas do veneno. Não conseguiu chegar em casa. Ficou dois dias desaparecido até que um grupo de rapazes o localizou na saída do bosque. Foi levado para a vila moribundo.

A velha Adin, uma senhora muito experiente das coisas do mundo, logo avisou a família: “Isso é coisa do povo de Indra.”Ao ser questionada da cura, respondeu: “A primogênita terá que ir até o Bosque de Indra e procurar por Líbia, a rainha de todas as ninfas. Lá, ela descobrirá a cura.”

E assim, começou o destino de Olabisi. Tinha apenas 10 anos, mas tinha muita personalidade e coragem. Já dava sinais de que seria uma das mais belas donzelas da Vila de Karskadan. Seus cabelos vermelhos eram indomáveis cachos q desciam pelo magros ombros. Os olhos eram cor de âmbar, quase alaranjados.

A menina seguiu estrada acima, e demorou quatro horas para chegar ao Bosque de Indra. Lá, foi recepcionada por Mewlok: “Minha jovem, madame está a sua espera.”

A aparência do fauno assustou um pouco a criança, mas ela o seguiu, sem saber ao certo o que fazer. Ao encontrar Líbia, a menina ficou fascinada com a beleza etéria da ninfa. Longos cabelos puramente negros, olhos cor de safira, corpo longilíneo, e orelhas tão pontudas que não colocavam em dúvida sua origem.

“Não se assuste, criança. Sente aqui.” E, num tronco coberto de musgo e pequenos miosótis, a menina sentou e ficou admirando a mítica interlocutora. “Seu pai violou as regras desde Condado. Ele não somente invadiu os meu domínios, como também ousou fazer de leito minha residência. Mas, não se preocupe. Eu tenho o antídoto para a doença de seu pai. Este bálsamo de carvalho com lírios de marfim, misturado ao chá verde normal, acabam com o efeito do veneno.”

Olabise estendeu a mão para pegar o frasco, mas Líbia a deteve. “Não!”, disse, “a cura tem uma pequena condição. Você, minha pequena, quando completar 21 anos, virá até mim e se tornará imortal, vivendo sobre estas árvores por toda a sua eternidade.”

A criança entendeu o significado daquilo. Daqui há dez anos diria adeus a todos que amava. No entanto, amava muito seu pai, e por ele, faria qualquer sacrifício.

“Aceito, senhora.” E neste momento Líbia lhe estendeu o frasco, e disse: “Lembre-se, no dia dos seus 21 anos, estarei te esperando.” Olabisi consentiu com a cabeça, e correu bosque a fora para chegar rápido na vila.

Após tomar o chá, Guiwi já se sentiu melhor. No outro dia, já conseguiu levantar e trabalhar. Olabisi não contou à ninguém sobre o pacto com a ninfa.

E os anos foram passando, e a menina foi crescendo, e tornou-se realmente uma bela jovem. Era muito calada e introvertida. Passava as manhãs no tear, e as tardes a coser na varanda de seu bangalô. Com uma pele alva, cabeleira longa – que não cortou por dez anos – Olabisi chamava a atenção. Era cortejada pelos rapazes, mas não correspondia a ninguém. Apenas sorria, o sorriso misterioso das virgens que guardam segredos.

No dia certo, apenas acordou no horário de costume, colocou seu melhor vestido de domingo, enfeitou seus cabelos com flores, pois era primavera, beijou sua mãe e irmã, e apenas se foi.

Caminhou as longas quatro horas até o Bosque de Indra, já ao longe, pôde avistar a figura de Líbia e de outras ninfas que a cercavam. Pôde sentir que algo estava diferente, e a poucos metros da entrada do bosque, suas orelhas já estavam pontudas. Era a magia de Indra fazendo efeito mediante o pacto cumprido.


Fim